12/01/2018

Sobre a H&M, racismo velado, e privilégios sociais


Não era para fazer um post sobre isto, pois já tinha deixado mais que clara a minha opinião em relação ao assunto no meu instagram (@umafricana, quem não seguir é um ovo podre). Mas lá senti necessidade de o fazer, por que afinal isto é o meu blog e nada mais justo do que eu deixar claro o meu posicionamento também aqui, no meu espaço favorito.

A internet ferveu na segunda feira por conta de uma camisola à venda no site da H&M que tinha escrita a seguinte frase: "coolest monkey in the jungle", ou em bom português: "macaco mais fixe da selva". E o modelo que usava esta camisola era nada mais nada menos do que uma criança negra.

O que isto tem de errado? Tudo. Sim, a H&M esteve mal. Pode até não ter sido propositado, mas foi uma grande falha. E todas as ações têm consequências, portanto foi o que se viu.

Mas como já era de esperar, há sempre um grupo de pessoas de fora que adora dar aquela típica opinião que, se me permitem, roça muito a falta de empatia e bom senso. Passo a citar (e rebater) algumas.

"Quem associa o macaco ao menino é que está a ser preconceituoso." Ok, let's get the facts right here. Historicamente falando, o termo "macaco" quando associado a uma pessoa negra, tem uma conotação muito negativa. Ponto. Portanto, estavam à espera de quê? Era óbvio que ia dar que falar, era óbvio que iria SIM ofender. Não é justo inverterem os papéis e quererem acusar quem se sentiu lesado de preconceituoso. Aliás, não tem sentido nenhum.

Sim, um menino negro usar uma camisola com aquele tipo de frase não deveria ser ofensivo, mas é, a partir do momento em que utilizam esse termo para nos ofender desde dos primórdios.

Reparem, não é só sobre o termo em si. É sobre toda a carga negativa e histórica que isso implica e simboliza, e que se prolonga até hoje, ainda que muitas vezes de uma forma velada. Caso não saibam, até há pouco mais de 60 anos atrás, haviam pela Europa e pelos EUA zoológicos humanos. Zoológicos onde pessoas negras serviam de entretenimento à elite branca, como atrações numa Disneyland. Isto para não enumerar outras milhentas situações a que o nosso povo negro foi (e é) sujeito desde sempre. Portanto, não me digam que "o racismo está nos olhos de quem vê", quando ele nos foi empurrado goela abaixo pela sociedade, há muito tempo.

"Há coisas mais importantes do que isto."   Sim, eu sei que há. Eu, Sandra, estou consciente disso e faço questão de passar a mensagem nas minhas redes sociais sempre que posso. Mas duvido muito que a maioria das pessoas que diz que "há coisas mais importantes que isso" realmente se importe com essas outras coisas. Vou dar-vos um exemplo. Um dia antes, partilhei esta iniciativa maravilhosa da Kéké no instastories, adivinhem? Muito pouca gente leu. Se é que realmente leram. I mean....? Percebem o quão hipócrita é trazerem esses outros assuntos à baila por conveniência? Onde estão estes moralistas para defender essas outras coisas com o mesmo empenho que minimizam uma dor que não é sua?

E o irónico no meio disto tudo é que a grande maioria das pessoas que acha isto tudo vitimismo e exagerado são pessoas brancas/caucasianas. O que por si só já diz muito, não é mesmo? Engraçado como falam com tanta propriedade de um assunto que lhes passa muito ao lado. Uma dica de amiga: reconheçam os vossos privilégios sociais e sejam um pouco mais sensatos. Se é uma opressão da qual não sofrem, porque opinam como se entendessem tanto do assunto? Porque é que se acham no direito de questionar se devemos ou não  ficar ofendidos?

Para 2018, cultivem empatia dentro de vocês, é de graça e só vos fica bem. Respeitem, procurem entender e apoiem, ou então não atrapalhem. Peace.

4 comentários :

  1. ☝����

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  2. Olé, falou e disse. E eu bato palmas. É óbvio que a mim, como branca que sou, não me "ofende directamente", ou seja, eu não levo como ataque pessoal. Mas, como ser humano que sou, percebo que para quem é negro e vê historicamente associado a si esta expressão como um insulto, É ÓBVIO que se vai sentir atacado! É uma questão de lógica! E, se acho honestamente que o estagiário da equipa da H&M que fez isto é burro como um calhau e não percebeu o que estava a fazer, e por isso não acho que seja necessário "boicotar" a marca, também acho que é importante chamar a atenção e falar destas questões para que um dia, sim, possamos deixar de ver racismo espalhado um pouco por todas as áreas. A ver vamos...

    Jiji

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  3. Reproduzo o que comentei pelo face: Tudo verdade isso. Eu chamo os meus dois filhos de macaquinhos com muita frequência mas, lá está, eles são brancos. Duvido honestamente que o fizesse se eu ou eles ou todos fossemos pretos. As palavras não têm sempre o mesmo peso. E até acredito que tenha sido só uma 'pisada na bola' da H&M. Mas foi grosseirona e podia ter sido evitada.

    E já que falamos de empatia, nem de propósito escrevi por estes dias um post com esse tema que deixo 'para a troca': http://www.entrems.com/essa-tal-empatia/

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  4. Também vi alguns blogs abordar este assunto a dizer que era um exagero, tive que comentar, obvio que compreendo pk acham que é um exagero pois nunca senti racismo mas andei na escola com crianças de todas as cores formas e feitios e quando alguem chamava de macaco a um menino preto não era para dizer que ele era engraçado... era sim para humilhar/insultar ja chamar macaco a um menino branco é para dizer que ele é engraçado alias eu ate chamo o meu namorado de macaquinho mas se ele fosse preto duvido que a minha sogra fosse gostar de ouvir eu a chamar isso ao filho dela, só por ai já se vê que não é um exagero ficar revoltado com esta foto!

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